Encontro de gerações

Alguns fatos que estão ocorrendo nestes últimos tempos são surpreendentes. Basta prestarmos atenção. Pertenço à geração dos nascidos entre as décadas de 1960 e 1970 (sou de 1968). Portanto pertenço à geração “X”. Possivelmente a geração mais sofrida da história da humanidade. Mas não quero entrar nesse detalhe. O fato é que ocorreram tantas mudanças nas últimas décadas que temos tido a grata satisfação de convivermos. Ou seja, o homem pré-histórico e o contemporâneo em convívio. Sim, exatamente. Sou pré-histórico. E se você faz parte da minha geração, ou anterior, também é. Nossa formação neurológica é diferente. Somos (sou) analógicos. Minha geração tem consciência da tecnologia e faz uso dela. As gerações mais jovens e, principalmente os nascidos a partir dos anos 2000, já vêm com a tecnologia incorporada. Os ged gats e ambientes virtuais são uma extensão de seus cérebros.

Sim, creio que esta seja uma larga vantagem, se compararmos com nossas estruturas primitivas. Mas temos algo deveras importante, que as novas gerações não têm e precisam muito ter para viver. Fazemos parte da geração da transição. Sou publicitário, filho de um designer (autodidata). Sempre vivi em um ambiente dedicado às artes e ao design. Faz parte de minha formação profissional: canetas Nankin, Letraset, estilete, borracha, cola de sapateiro, papel manteiga, máquina de escrever, aerógrafo, retroprojetor, etc. Meu pai tinha um equipamento de projeção chamado “pentescópio”. Uma traquitana enorme que servia para ampliações rápidas sem a necessidade de fotografia. Naquele tempo, se quiséssemos a ampliação de um documento, seria necessário fotografá-lo, criar um negativo em papel filme, para posteriormente reprocessar queimando papel fotográfico em tamanho maior do que o original. Sim, tudo isso. Não havia zoom-in ou zoom-out . Sabe aquela ferramentinha iconizada por uma “lupa” no seu Photoshop? É, ela não existia. Por curiosidade, pesquisei no Google o termo (ou marca, não lembro) pentescópio ou pentascópio e incrivelmente o pesquisador “nada encontrou”. Veja, eu tenho uma informação privilegiada, que sequer o Google a possui. É a partir daí que começam as minhas (nossa) vantagens em relação às novas gerações.

Temos determinado tipo de conteúdo e experiências que as gerações mais novas ficam pasmas ao nos ouvirem testemunhar. Trabalho com profissionais mais jovens, afinal minha profissão é parecida com jogadores de futebol. Até certa idade (fisicamente falando) jogamos na linha (ou no banco). A partir de um determinado tempo (de uso) servimos, no máximo como técnicos (nem todos tão bons). Esse encontro de gerações, que ocorre em meu dia a dia, e que eu tenho observado atentamente, tem proporcionado uma riqueza extraordinária em ambos os lados. Para eles, sou um dinossauro com a experiência de ter vivido tudo aquilo. Para mim, eles são a porta de acesso para um mundo novo. Sem precedentes. Há poucos dias li um artigo que fazia referência a esses novos tempos, afirmando que o que está acontecendo com a humanidade nos dias atuais somente pode ser comparado à transição da era neolítica. O Período Neolítico é considerado um importante avanço social, econômico e político. “Nesse período, o homem descobre-se como um ser social que tem muito mais vantagem de agir em grupo do que individualmente.” Essa citação fui buscar no amigo Google. Como seria o nome atribuído a essa nova era que estamos acessando? E que, ao contrário de outras, o homem levou centenas de anos para a transição, e agora estamos fazendo em algumas décadas apenas. Sim, tivemos mudanças profundas na ciência, na tecnologia e no social. Ou você acha que não? Conheci um aplicativo, que você fotografa com seu I-phone uma mancha na pele e, em segundos, temos o diagnóstico preciso se é um câncer ou não. Já imaginou falar sobre isso com alguém há apenas 20 anos? Inconcebível! Mas é o que está disponível para qualquer um. Nascidos antes ou depois dos anos 2000.

Desta forma, o que estamos vivendo é extraordinário. Esse encontro de gerações, ou de “espécie” humana, tem sido gratificante.Toda a transição herda características da antecessora. Mas desta vez ambas estão convivendo. Com desafios semelhantes, mas com percepções absolutamente distintas. No ambiente criativo e de inovação, que é este que vivo, para mim, tem sido impagável.

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